Amarnifesto

2009, Nelson Job

“Assim, vocês não podem, talvez, mudar o mundo, mas podem, e devem, mudar o mundo à sua volta.”

Desire is hunger is the fire I breathe
Patti Smith

“Esse é o ponto.
O amor não é seu ou meu;
ele não é pessoal,
nem uma coisa que pertença a alguém;
o amor não é isso.”
Krishnamurti

Oi, eu sou o amor. Tô meio puto com a minha situação. Ando na boca de qualquer um, na música de qualquer um, e, putz, na novela de qualquer um. Sou “a coisa que as pessoas mais querem”, mas não fazem quase nada por mim, e fazem quase tudo por, por exemplo, dinheiro, segurança. As pessoas acham que elas amam. Não é bem assim. Eu surjo entre o desejo intenso e profundo de duas ou mais entidades. Eu fico por ali enquanto houver loucura e cultivo das entidades em questão. Sem preconceito com a loucura, heim!? Não tem nada mais lúcido, translúcido, do que a loucura confluindo com o cultivo. Por “loucura” e “cultivo” serem excludentes na cabeça da maioria das pessoas, eu me torno inviável, fora o período da paixão, que tem mais loucura do que cultivo, diga-se de passagem. Aliás: passagem. Esse é um grande problema. Quando eu disse que as pessoas acham que amam, quero dizer que o “eu” não ama outra pessoa. Isso (uma pessoa amar outra) é ontologicamente impossível. As pessoas odeiam outras pessoas. O ódio sou eu, o amor, trans-tornado, densificado ao limite da estagnação. E o ódio mais terrível é quando do voceu sai um “eu”, amedrontado, começando a odiar. Daí, o outro que sobrou, novamente densificado à categoria de “eu”, é tomado de um ódio violento. Não que o ódio seja meu inimigo, pois sou eu mesmo. O problema é outro: todo o tipo de entorpecimento forçado, seja de comida, droga ou poder, manifesta uma preguiça de evocar a minha presença, procurando atalhos viciantes e ineficazes. Com exceção do poder, os outros podem ajudar, mas não são o caminho: eu sou o caminho para mim. Então, eu preciso, também, de coragem. Não reclame de solidão: ela é evidência de que, como diria Lucia, “Você está intoxicado de você”. “Solidão”, como a palavra evidencia, é um “sólido muito grande”. Diminua a densidade, adquira velocidade. Eu, o amor, sou da ordem da passagem, isto é, quando o “eu” se minimiza para imperar o nós, “nós” enquanto uma entidade múltipla de afetos e afetações. O “eu” vira fundo e a relação vira figura. Pois é, se as pessoas soubessem o quanto eu, o amor, tô em tudo quanto é canto… eu sou a ligação de tudo. Aliás tudo vem de mim e as minemas de ódio criam as coisas, aparentemente separadas. Mas costuma existir uma lasquinha de mim que permite a conexão. Em todo o lugar, em todo o tempo, em qualquer acontecência. Então, não fica aí reclamando que a sua vida é sem amor. Porra! Sem amor não teria a “sua vida”. Se você quiser mais amor, a única saída é você abandonar o máximo possível você. Fora isso (se abandonar), o que sobra é a decepção do “eu”, é claro. Toda uma questão de velocidade. Isso é foda, é “a” coisa. Então, por favor, não fica por aí dizendo que você “amou” aquela roupa ou aquele carro. Não fica dizendo o indizível, me vulgarizando. Terríveis são aqueles casais que dizem com certa raiva “Amor, olha as crianças direito aí!!!”. Não apelidem seus cônjuges com o meu nome. Exultem-me em pleno ato. Esperem que eu apareça para dizer o meu nome. Isso não deslegitima o “eu te amo” dito para além do clichê, com intensidade e sinceridade; mas o “eu te amo” não é o fim, nem o ápice, é só o trampolim do “eu te amo” para o “ama-se”, sem “eu” e “você”, mas um entre nós. Mas isso que eu tô falando, não é autoconsciência. Ninguém me “entende”, nem eu mesmo, não sou dessa ordem. Alguns chegaram perto: Spinoza, Guimarães Rosa, Almodóvar, Lou Reed, o budismo, as partículas quânticamente emaranhadas. Pois é: os que sequer falam de mim, chegam, muitas vezes, mais próximo a algum “entendimento” sobre mim do que aqueles que abusam do meu nome. Romeu e Julieta começaram muito bem brigando contra a monarquia em meu nome, mas acabaram muito mau morrendo em meu nome. Puta merda! Não se morre por amor, todo o contrário: amar é vida, engendra vida! Melhor Sartre & Beauvoir, ou até “casais” que não se declaram, como Jagger & Richards. Quando vocês ficarem desesperançados da minha existência, olhem profundamente pros olhos de uma criança. Quanto mais nova melhor. Quando ela sorrir e você sentir um misto de paz e entorpecimento das tripas, saiba que a criança não riu “pra você” nem o entorpecimento e a paz foram por causa da criança, mas o sorriso-paz-entorpecimento são ressonâncias do meu transbordar. Não que eu despreze o coração, mas se eu tiver que escolher um órgão cujas manifestações da minha presença são mais intensas, eu elejo as tripas. Assim como a cor que me identifico mais é o azul, digamos um azul-neon, e não o vermelho. E o fato de que eu, o amor, seja da ordem da passagem, não quer dizer que eu tenha que ser curto. Lembro-te: cultivo. Junto com a loucura. E não existem “jogos de amor”. Eu não jogo. Sou da ordem de outra coisa, de uma Ética. Assim, vocês não podem, talvez, mudar o mundo, mas podem, e devem, mudar o mundo à sua volta.

Tão esperando o quê?

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