As transubstanciações em Lourenço Mutarelli

Candy says I’ve come to hate my body
And all that it requires in this world
Candy says I’d like to know completely
What others so discreetly talk about
Lou Reed

A obra de Lourenço Mutarelli é o segredo mais mal guardado da literatura brasileira: “mal guardado” porque Mutarelli ganhou vários prêmios por suas HQs (histórias em quadrinhos), atuou em filmes de repercussão nacional, um deles baseado em um de seus livros, é autor na maior editora do Brasil e já deu várias entrevistas para diversas mídias, incluindo para Antônio Abujamra[2] e Drauzio Varella[3]. “Segredo” porque a obra de Mutarelli guarda extremos da literatura contemporânea, não apenas do Brasil, mas mundial, no entanto, a crítica especializada, acadêmica, praticamente o ignora, exceto por teses de alunos.

O que justifica esse silêncio? Uma possibilidade seria o fato de o artista paulista ser oriundo das HQs, expressão artística apreendida de forma injusta enquanto subliteratura; outra, seria o fato de Mutarelli, avesso a modismos, muitas vezes ambientado numa classe média baixa paulista, com conteúdos que passam de obsessão pela bunda até mesmo citar cenas do seriado humorístico mexicano Chaves, o que pode fazer com que o suposto “bom gosto” acadêmico torça o nariz. Ser “avesso a modismos” quer dizer aqui que os modismos celebrados ad nauseam pela crítica não são recorrentes na obra de Mutarelli: a “poética da pobreza”, seja ela do sertão ou da favela, o “sofrimento lírico” das minorias. Não que o autor seja insensível a esses problemas, muito pelo contrário, mas sua obra transpassa inspirações de caráter autobiográfico, ainda que não seja limitada por estas. Neste artigo, vamos fazer jus à grandeza menor[4] da obra de Mutarelli, ressaltando o que ela possui de um extremo criativo.

“Yira, yira!”
Depois de ter publicado em alguns fanzines na década de 1980, esnobado pelos colegas já estabelecidos, Mutarelli publica em 1991 sua primeira graphic novel, a premiada Transubstanciação. Seu processo criativo foi intenso e tortuoso. Numa HQ escrita mais tarde, Réquiem, que é base do vídeo de Felipe Duque[5], em 2007, os bastidores são revelados, incluindo a triste ressonância do processo em Mutarelli com a morte de seu amigo Leonardo Sena. O escritor foi levado a uma festa surpresa de seu aniversário, elaborada por colegas de trabalho, simulando um sequestro, que durou cerca de quarenta minutos. Durante o período de sequestro simulado, ao ser várias vezes ameaçado, Mutarelli decidiu sofrer uma morte psíquica, o que ele chamou de “exercício de morrer”. Essa decisão o assombrou por anos, levando a um período de intensa depressão e o (auto)diagnóstico de síndrome do pânico. A despeito de tentativas de sair daquele estado, que vão da psiquiatria até visitas de pai de santo, o que, de fato, possibilitou uma melhoria de sua saúde psíquica ao artista foi seu processo criativo. Em seus breves momentos de arrefecimento da crise, ele elaborou a história de Transubstanciação e, ainda deitado, iniciou os desenhos. A arte nos desenhos de Muterelli é difícil de qualificar, algo que emerge entre as HQs de Robert Crumb e as pinturas de Francis Bacon e se transubstancia.

Mutarelli diz a todo o tempo que sua criação é seu tratamento e que por meio dela torna-se uma pessoa melhor, não importando, assim, a aceitação da obra por terceiros e mesmo uma suposta impossibilidade de publicação. Deleuze, em seu artigo “A literatura e a vida”, contribui para essa postura: “o escritor como tal não é doente, mas médico, médico de si próprio e do mundo”.

Transubstanciação traz um poeta recém-solto da prisão, filho de Zoster, uma atração de circo com quatro braços e duas mãos. Com tangos argentinos onipresentes, a história se dá com o poeta passando pela transubstanciação que envolve: a indistinção entre sonho e da realidade, não mais pertencer ao passado, ainda que o passado o pertença, não temer a escuridão, mas se alimentar dela e um desprezo pela humanidade. Ao confundir uma guia de museu com um finado caso amoroso, ao lado de quadros de Munch e Grosz, o poeta é assassinado pela polícia militar. Em dado momento da , o protagonista confronta-se com Deus, que traz sua “imagem e semelhança”. Pergunta a Ele qual sua criação preferida e Deus responde que são as tampinhas de Coca-Cola.

Os temas de Transubstanciação são recorrentes na obra de Mutarelli, ele mesmo reafirmando que escreve apenas o mesmo livro com algumas derivações: certa inversão teológica, que se avizinha do Gnosticismo, relações de pai e filho, questionamentos acerca da realidade, os limites da linguagem e da expressão artística etc. A própria Transubstanciação será citada em sua HQ de maior sucesso, A trilogia do acidente, e no romance O grifo de Abdera.

Transubstanciação ressoa, inevitavelmente, com A metamorfose de Kafka. Mutarelli fez várias ilustrações do livro para a editora Autofágica, lembrando vagamente os traços do quadrinista francês Moebius, mostrando a metamorfose de Gregor Samsa em inseto ao longo do livro. Em seu posfácio, Mutarelli escreve: “A metamorfose foi o maior impacto que a literatura já exercera em mim. (…) Algo que tocou o lado mais obscuro e metafísico em mim, e que fez vibrar os fios de meu mundo onírico. A metamorfose despertou uma força ancestral em meu ser. Algo maior que eu. Desde então, esse passou a ser para mim o livro mais simbólico de todos. Havia uma identidade absoluta. Gregor Samsa representava meus sentimentos, principalmente na ocasião em que li a obra pela primeira vez, tão precisamente.

Outro autor que vai ressoar A metamorfose é Philip K. Dick, no conto A formiga elétrica[6]. Garson Poole acorda, depois de um acidente, descobrindo ser uma “formiga elétrica”, apelido para androides. Os experimentos em seu próprio cérebro eletrônico fazem com que Poole coloque sua experiência de realidade em cheque. Ainda que Mutarelli, como veremos, invista pouco no território literário recorrente de Dick, a ficção científica, o escritor talvez seja o que mais ressoe com o norte-americano aqui no Brasil, no sentido de questionar a realidade e os limites da sanidade, além do sabor gnóstico em ambas as obras.

O termo “transubstanciação” aparece originalmente no Catolicismo, que é a transformação na Eucaristia do pão e vinho em corpo e sangue do Cristo. A partir a obra de Mutarelli, expandimos a apreensão do termo, a princípio, com o conceito de transdução em Gilbert Simondon no seu livro A individuação à luz das noções de forma e informação, em que o filósofo, a partir do fenômeno físico de transformar uma energia em outra, conceitua a transdução como uma operação física, biológica, mental e social em que uma atividade propaga-se de forma metaestável, heterogênea e não-dialética, de modo que os diferentes saberes se relacionam de forma horizontal, ou seja, não-hierárquica. Nos transaberes[7], preferimos enfatizar o termo modulação – que Simondon também trabalha, ressoando com a transdução -, ou seja, uma variação de vibrações, podendo ocorrer nas mais densas às mais sutis e vice-versa, sempre em ressonância com outras. Consideramos as transubstanciações de Mutarelli, Dick e Kafka, presentes neste texto, como belos exemplos de modulações na literatura e, por desdobramento, na vida. Se, em sua Transubstanciação, Mutarelli transubstancia sua morte psíquica em HQ, veremos que esse método em aberto da transubstanciação ocorrerá outras vezes ao longo de seu processo, no entanto, enquanto “aberto”, nunca será o mesmo.

Em setembro de 2000, Mutarelli publica uma webcomic intitulada Mundo Pet. Nela, somos apresentados a uma entidade que o autor encontra e decide guardá-la em sua cabeça. A entidade faz exigências, que obriga, segundo Mutarelli, a ele próprio ter que fazer HQs para a entidade não o enlouquecer. Mundo Pet, ao ser publicada junto às outras webcomics criadas por Mutarelli, emprestou o título à coletânea.

Entre 1999 e 2002, Mutarelli publica A trilogia do acidente. O protagonista da trilogia é Diomedes, policial aposentado que trabalha como detive particular que nunca resolveu nenhum caso. A princípio, Diomedes seria personagem de apenas uma história, mas o personagem insistiu. Mutarelli não conseguia matá-lo, fazendo com que Diomedes ganhasse a cada desenho mais as feições e o modo de falar do pai homônimo de Mutarelli, ex-policial, torturador, pai severo e violento, que o apresentou aos quadrinhos, além de ser interessado em artes em geral e era o primeiro leitor da trilogia, até seu falecimento. A figura complexa e ambígua de seu pai é inspiração infindável na obra de Mutarelli.

Depois de uma viagem a Portugal onde Mutarelli foi muito bem recebido em uma convenção de quadrinhos, ele finalmente conseguiu terminar a trilogia, que então se transubstanciaria em quatro partes. Diomedes se encontra com uma versão de Mutarelli na última história, em que se revelaria um falso e um verdadeiro segredo de Lisboa, terminando a trilogia com o único caso desvendado por Diomedes, mas que este não poderia revelá-lo a ninguém.

A trilogia inicia-se com a busca ao mágico Enigmo, busca esta que leva a supor ser Enigmo o Cristo ressuscitado. No entanto, a busca a Enigmo tem importância variável na trilogia, transubstanciando o clichê das histórias policiais. A trilogia torna-se uma busca de redenção e sentido da vida, ainda que sua realização seja um tanto melancólica. Diomedes dizia acreditar ser a magia a soma de tudo: o que está entre os mundos do sonho e da vigília, entre o copo de cachaça e o primeiro gole; mas eis que a travessia torna Diomedes uma espécie de leibziniano, em que, no mundo que se expressa por ele, “a magia está sempre em outro lugar”.

Ao final do primeiro capítulo da trilogia, Mutarelli cita o Dicionário de símbolos de Chevalier e Gheerbrant, quando estes comentam a carta do tarô – outra referência recorrente em sua obra – Roda da Fortuna, no sentido que esta diferencia-se do círculo pela “valência da imperfeição”, cujo devir remete a uma criação contínua, como, diríamos, um ouroboros cuja serpente é demoníaca. Ao final da trilogia, Mutarelli ainda cita Caos de James Gleick, quando este refere-se a Sensitive Chaos de Theodor Schwenk, mostrando a recorrência dos vórtices na Natureza, enquanto instabilidades imanentes.

Ao som do tango Yira, yira, composto por Enrique Santos Discépolo e imortalizado por Carlos Gardel, a Roda da Fortuna e os movimentos caóticos da Natureza, Mutarelli nos apresenta o seu vórtex, ou seja, sua gira transubstanciada.

“Ela diz que me ama. Como quem diz ‘obrigado’”
Uma nova transubstanciação emerge no processo criativo de Mutarelli: a passagem do autor de HQs para o romancista, ainda que ele ilustre todas as capas de seus romances. Sua primeira incursão na literatura, O cheiro do ralo, é lançado em 2002, cuja apresentação é feita por Arnaldo Antunes, fã das HQs de Mutarelli. Como o autor estava acostumado aos roteiros das HQs, O cheiro do ralo apresenta uma literatura minimalista, com diálogos curtos e poucas descrições. Sua principal inspiração para se aventurar na literatura foi a leitura do romance Capão Pecado, de seu amigo Ferrez.

Os personagens não possuem nomes, o protagonista compra objetos usados, mas, curiosamente, nunca os vende, como se apenas pudesse consumir, para preencher, quem sabe, um ralo existencial? Alguns dos itens que ele adquire, são juntados para construir uma espécie de reprodução do pai do protagonista. Ao final, descobrimos que o ralo também é vórtex, em oposição à bunda que o protagonista é obcecado, sem que ele se lembre sequer do rosto de sua detentora.

O cheiro do ralo foi adaptado com sucesso para o cinema em 2007 por Heitor Dhalia. Contracenando com o ator Selton Mello, Mutarelli faz uma de suas primeiras incursões como ator – ou como “não-ator”, como ele prefere –, interpretando o segurança do protagonista. Mas a performance mais conhecida de Mutarelli será com Carlos, no grande sucesso Que horas ela volta?, dirigido por Anna Muylaert, de 2015, cuja diretora tem por hábito convidar Mutarelli para atuar em seus curtas e filmes. Conhecida por estimular o improviso em seus atores, Muylaert permitiu que Mutarelli reescrevesse parte das falas de seus papéis.

A escrita minimalista vai se manter nos próximos dois romances de Mutarelli, ambos de 2004: O natimorto e Jesus Kid. Em Natimorto, romance em que “as transparências enganam”, Mutarelli conta, em forma de diálogo, a relação entre um agente musical e uma cantora que canta sem voz. O agente tem como hábito jogar um tarô criado por ele a partir das imagens da campanha antitabagista nos maços de cigarro: o maço comprado irá determinar o fluxo do dia. Esse tema é resultado de estudo de tarô feito pelo autor, ele próprio tabagista.

O natimorto foi transformado em peça pelo amigo de Mutarelli, o dramaturgo Mário Bortolotto, e em filme por Paulo Machline, em que o próprio Mutarelli contracena com Simone Spoladore. Se a peça é fiel ao romance, o filme não tem o seu humor.

O teatro será outro espaço de criação de Mutarelli. Ele escreveu cinco peças, compiladas no livro O teatro das sombras, em 2007, e roteirizou a websérie Corpo estranho[8], em que também atuou, ao lado de José Mojica Marins (cujo personagem era muito parecido com o seu Zé do Caixão – que Mutarelli é fã -, mas em trajes brancos), Mário Bortolotto, Paulo César Pereio, entre outros.

Jesus Kid foi encomendado originalmente como roteiro de cinema para Mutarelli com algumas diretrizes esdrúxulas: se passar em hotel, ter batatas fritas, favela, pin-ups, academia de ginástica etc. O filme foi dirigido por Aly Muritiba, protagonizado pelo ex-titã Paulo Miklos e está prestes a ser lançado. Essas diretrizes foram assimiladas por Mutarelli em níveis de metalinguagem: a história se passa contada pelo protagonista, que recebe a encomenda de roteiro com as mesmas diretrizes e, à medida que estas eram solicitadas, elas aconteciam com o protagonista que escrevia o roteiro no romance.

Em 2005 é lançado a HQ de Mutarelli A caixa de areia ou eu era dois em meu quintal. Nela, as discussões sobre a realidade se intensificam, emulando as filosofias de Platão e Schopenhauer[9].

“Dessa vez, no elevador só há outro eu no espelho”
Em A arte de produzir efeito sem causa, de 2008, está em curso uma experimentação ainda maior. Os cadernos de rascunho de Mutarelli já possuem um estatuto mítico em sua obra, ele os considera fundamental para seu processo criativo, sempre se remetendo a eles, mesmo quando não está envolvido diretamente em algum projeto. Parte deles já foram publicados em 2012 e reproduzidos na exposição do Sesc Pompeia, Meu nome era Lourenço, em 2018, com curadoria de Manu Maltez. Eles envolvem colagens de revistas velhas, desenhos e escritos, cujas linhas muitas vezes se expressam também pelas suas formas. Em A arte…, alguns rascunhos são reproduzidos na capa e ao longo do livro.

A arte… é muito inspirado na obra de William Burroughs, sobretudo na ideia presente em A revolução eletrônica, em que o escritor guru dos beatniks afirma ser a palavra escrita um vírus, sendo a literatura uma forma de, a partir da própria palavra escrita, se livrar de seu contágio.

O protagonista de A arte… se torna, supostamente, afásico: esse desafio será um dos motes que Mutarelli buscará na escritura desse romance: como gerar uma literatura afásica?

Mais uma vez, estarão lá a relação com o pai, o Diabo, as discussões sobre a natureza da realidade e do tempo, como, por exemplo, o pisca-pisca do videocassete, que desligou e não foi ajustado, insiste em marcar o tempo sempre na mesma hora: “o tempo parou e mesmo assim continua pulsando”. Inadvertidamente ou não, Mutarelli ressoa com as mais belas filosofias místicas bergsonianas e/ou “orientais”.

O romance foi adaptado para o cinema com o título Quando eu era vivo, uma das falas de A arte…, por Marco Dutra e Gabriela Amaral Almeida em 2014, com Antônio Fagundes e a escalação improvável da cantora Sandy, entre outros. O filme traz várias alterações em relação ao romance.

A arte… sofistica algo que Mutarelli instaura na literatura como ninguém: o narrador com onisciência variável. O narrador supõe o que o protagonista parece ter pensado ou, em outro momento, parece “perguntar com os olhos”, por outro lado, em determinado trecho, ele oferece mais informações que o protagonista tem. Essa variação vai ganhar outras intensidades em O grifo de Abdera, como veremos.

William Burroughs é uma referência constante na obra de Mutarelli, não só em A arte…, mas também na peça Arremedo, no romance O grifo de Abdera; até mesmo em seus cadernos de rascunhos há ecos do método cut-up do escritor norte-americano. Quando interpelado tanto pela constância de Burroughs quanto pela do pai em sua obra, Mutarelli se insurge produzindo a HQ Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, em que Burroughs é o pai.

Na peça Mau-olhado, em que a protagonista contracena com bonecos inertes, há uma reflexão sobre a relação do mundo imaginário/onírico e o real. A protagonista tece comentários que ao parar de desenhar e se tornando adulta, a criança deixa de acreditar na magia e de transitar entre mundos, fazendo com que a fantasia agora a domine, tornando-se sombria. O artista seria a pessoa em que tal capacidade insiste.

No romance Miguel e os demônios, de 2009, único considerado mal finalizado pelo próprio Mutarelli, ele volta ao tema policial, agora apresentando uma “teoria da conspiração” em que a sua teologia negativa é apresentada com todas as letras: Deus é o Diabo.

O tema do Diabo, também recorrente na obra de Mutarelli, alcança uma curiosa expressão em 2014, quando ele fez o papel do próprio, no filme musical O diabo era mais embaixo, de Manu Maltez – que, como vimos, organizou a exposição sobre a obra de Mutarelli – e também quando ele interpreta o “jardineiro” em O escaravelho do diabo, de Carlo Milani, lançado em 2016.

Em 2010, Mutarelli lança o romance Nada me faltará, em que, mais uma vez, temas bíblicos o inspiram de forma irônica, como se percebe no próprio título. Aqui, ele volta ao estilo mais minimalista, limitando-se aos diálogos, contando a história do protagonista que surge depois de um ano desaparecido junto à mulher e à filha, alegando perda de memória, não sabendo onde elas se encontram. O romance cita o livro Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão, organizado por Michel Foucault, inserindo mais dados na instabilidade interpretativa do romance.

Mutarelli participou do projeto Cidades ilustradas, da editora Casas 21, em que artistas como Miguelanxo Prado, David Lloyd, Fábio Moon e Gabriel Bá, entre outros, foram convidados para ilustrar e comentar cidades brasileiras. A Mutarelli coube Manaus, com prefácio de Milton Hatoum. Ao lado de belas ilustrações, com humor e olhar peculiares, encontramos frases como “e sim, porque é fácil administrar a vida quando se está longe de sua fonte.”


“Estou cansado de permanecer”
Com O grifo de Abdera, de 2015, e no livro seguinte, Mutarelli passa a escrever romances mais extensos. Abdera leva a extremos o conceito de heterônomos: na capa, o livro é atribuído a Mutarelli, mas no interior e até no ISBN, ele é também atribuído aos personagens Mauro Tule Cornelli, Oliver Mulato e Raimundo Maria Silva, o Mundinho.

Mutarelli sempre ilustra o autorretrato para seus livros; mas aqui ele aparece em foto com o ator Nilton Bicudo, espécie de “sósia” de Mutarelli, que interpretou o agente na peça O natimorto, seu personagem conheceu a protagonista de Corpo estranho justamente no chamado Bar dos Sósias e participou de Spoiler[10], a leitura dramática do último capítulo de Abdera, com Mutarelli e o guitarrista Fabio Brum no lançamento do livro em São Paulo, Bicudo ficando então encarregado das falas de Mundinho.

O livro foi também uma encomenda para o cinema de um filme até hoje não realizado, cujas exigências eram que o protagonista fosse pensado para o ator Otávio Müller e tivesse uma prostituta grávida. Mutarelli diz que todos os seus narradores são também um personagem: nesse caso, Mauro Tule Cornelli, anagrama de Lourenço Mutarelli, que no romance é uma criação de Mauro, o escritor dos livros, e Mundinho, que é a faceta pública, participando de fotos, entrevistas e eventos literários. Em Abdera, Mauro tem uma “conexão” com Oliver Mulato, por sua vez, anagrama de Otávio Müller, que é o “protagonista”. Mauro tem uma espécie de vidência da vida de Oliver, professor recém-separado da esposa e desempregado, devido a uma peculiar Síndrome de Tourette que apenas se expressa em espanhol. Há ainda outro heterônomo, Paulo Schiavino, o desenhista falecido que ilustrava os roteiros de HQs de Mauro. Como Oliver também criou uma HQ, Mauro propôs a ele que despertassem o Mutarelli quadrinista, na ausência de Paulo. A HQ de Oliver, incluída como segundo capítulo em Abdera, intitula-se XXX e como o próprio título denuncia, foi inspirada em imagens de filmes pornô alemães da década de 1970. XXX é extremamente não-linear, problematizando a relatividade do tempo, com referências ao mago Aleister Crowley, o filme 2001 de Stanley Kubrick etc.

O título do romance deve-se a uma moeda que Mundinho dá a Mauro no metrô, com um a imagem do grifo. Mauro faz um anel com a moeda e a dá para Mundinho, mas a pede de volta, pretendendo jogá-la fora.

A questão da onisciência variável do narrador retorna mais intensa aqui, primeiro porque Mauro perde a conexão com Oliver várias vezes e, em dado momento, ele diz sobre si: “não sei se sorri de volta”, chegando a temer que “poderiam pôr em risco minha autoridade como narrador.”

Mauro cita o Clube da luta, quando grava uma conversa com Oliver e descobre que não há nada gravado. Essa relação Mutarelli-Mauro-Oliver também remete a de Phlip K. Dick-Horselover Fat em VALIS, em que Dick percebe ao longo do romance que ele é o seu protagonista.

Mutarelli assume um devir-polvo em Abdera, ao mencionar que o nanquim é extraído da tinta que o polvo emite ao se sentir ameaçado, devolvendo ao nanquim sua “função primitiva”.

Abdera anuncia o título do próximo romance de Mutarelli e possui vários finais em seu último capítulo, algo entre as cenas pós-crédito do filme Curtindo a vida adoidado de John Hughes e passagens de O inominável de Beckett.

Em 2018, Mutarelli publica seu último romance até então, O filho mais velho de Deus e/ou Livro IV. O humor sempre esteve presente em sua obra, ainda que algumas vezes de forma não tão explícita. Mas no Livro IV, o humor ganha um papel mais intenso. Vamos apreender, antes de prosseguirmos, a questão do cômico por meio da filosofia.

Deleuze & Guattari, em Kafka, convidam a rir com Nietzsche, Kafka e Beckett, provocando que quem não o faz é porque não entendeu esses autores. Deleuze ainda vai dizer em Francis Bacon: a lógica da sensação: “os grandes pintores sabem que não basta mutilar, maltratar, parodiar o clichê para obter um verdadeiro riso, uma verdadeira deformação” e, finalmente, lembrando que a filosofia é amizade à sabedoria, diz o filósofo na letra “F de fidelidade” de seu Abecedário: “Ser amigo é ver a pessoa e pensar: ‘O que vai nos fazer rir hoje?’. ‘O que nos faz rir no meio de todas essas catástrofes?’ É isso.” Na obra de Mutarelli, esse cômico contra o clichê insiste todo o tempo, ainda que com intensidades variáveis.

No Livro IV, o convite veio pelo projeto Amores Expressos da editora Companhia das Letras. Foram enviados diferentes romancistas para várias cidades do mundo que eles nunca haviam estado, além disso, a viagem teria que inspirar uma história de amor. A Mutarelli coube, contra seu desejo, Nova Iorque. Como o projeto exigia uma sinopse, Mutarelli passou por certo bloqueio criativo, pois precisa sempre se surpreender ao escrever, sem saber muito o que vem a seguir. O processo levou-o a escrever o romance E ninguém gritava na ponte, mas, ao considerá-lo ruim, não o lançou. Tempos depois, ele conseguiu escrever Livro IV, desrespeitando uma das regras: o romance não podia em nenhum momento se passar no Brasil, no entanto, no Livro IV, nosso país é o cenário final.

Mutarelli partiu da teoria da conspiração da invasão da Terra por reptilianos para dar norte ao romance. A ficção científica surge em sua obra de forma quase tergiversa, sempre sendo utilizada para os temas recorrentes do autor, como no roteiro da HQ Astronauta, de 2010 e em Quando meu pai

Grandes momentos cômicos de Abdera são quando o protagonista – que se apaixona por uma reptiliana e tem filhos com ela – traduz literalmente expressões idiomáticas do inglês.


“Desculpa tanta beleza”
Ainda viria mais uma transubstanciação: Mutarelli, ao final do tempestuoso ano de 2020, sofreu duas paradas cardíacas. A segunda, de acordo com os médicos que o atenderam, durou improváveis doze minutos. Mutarelli não sentiu medo, mas muito dor e serenidade. O “exercício de morrer” ganhou um novo nível. Ainda assim, algo insiste e Mutarelli sobreviveu, sem ter visto túneis coloridos e espíritos sorridentes: não vislumbrou a luz. Mutarelli refere-se ao episódio assim: “quando eu morri”.

Sua morte o levou a uma nova expressão literária. Ao se confrontar com uma insônia recorrente, seu estado entre o sono e a vigília, que muitas vezes produzem pensamentos surrealistas, levaram-no a escrever seu mais novo livro, O livro dos mortos, ainda em finalização, que é uma autobiografia hipnagógica. Ele revê fatos da sua vida, sua obra, mas com derivas ficcionais, dedicando várias páginas à sua morte.

Em uma das suas oficinas literárias – de onde extraímos várias das informações aqui presentes – encontramos um Mutarelli sensível, generoso, atencioso a todo tipo de pergunta e comentário, extremamente sincero, bem-humorado, mas sem se esquivar de emitir reflexões sombrias e muitas vezes pessimistas. O estranho riso dos grandes filósofos, escritores e pintores que dilacera o clichê está lá, contundente e insistente: sua obra o torna melhor.

Ao final de uma das aulas, que perigava se esgueirar pela madrugada, Mutarelli passou o vídeo do show Berlin de Lou Reed, em que este fazia um dueto em Candy Says com Antony, conhecido por ser acompanhado pelos The Johnsons. Antony interpreta a balada sombria com ternura, lirismo e poesia inigualáveis, fazendo movimentos levemente desconjuntados com o corpo, como se o canto e a música não coubessem nele, tudo isso sob o olhar admirado de Lou Reed. A canção do Velvet Undergound composta por Reed ganha novos alcances. Ao fim do vídeo, Mutarelli termina a aula desculpando-se por tanta beleza.

Essa é uma desculpa que também devo pedir ao escrever aqui acerca da obra de Mutarelli. Algo insiste nela em nos fazer rir, chorar, pensar, apreender o mundo em nuances inéditas, a adquirir sensibilidades estranhamente sutis ao fazer escutar o canto inaudível, ao levar a literatura a extremos que nunca vislumbramos até então. Uma beleza estranha, que habita o interstício ao longo do sonho e realidade, da dor e o riso, da morte e a vida.

Mutarelli segue usando o anel de Abdera.

Notas
[1] Nelson Job é criador do campo conceitual e experimental transaberes, psicólogo, pós-doutor em História das Ciências das Técnicas e Epistemologia/UFRJ e autor dos livros Confluências entre magia, filosofia, ciência e arte: a Ontologia Onírica e Vórtex: modulações na Unidade Dinâmica.
[2] Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=v2-sp-N9vVk&t=339s.
[3] Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Io7rWcnZFcY&t=1824s.
[4] Enquanto “menor”, estamos aqui referenciados por Deleuze & Guattari em seu Kafka: para uma literatura menor, em que os autores franceses postulam ser uma literatura menor aquela que cria uma nova língua dentro da língua, que faz emergir devires inauditos na literatura, fugindo aos clichês de uma literatura “maior”, ou seja, ainda que Mutarelli, de um lado, se instale em uma longa tradição “das metamorfoses dos seres em novos corpos”, por sua obra passam devires, emergem ecceidades, em que estão nossa atenção.
[5] Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Gb8AHn98Wh0.
[6] Ver nosso artigo Philip K. Dick: para além do império disponível em https://cosmosecontexto.org.br/philip-k-dick-para-alem-do-imperio/.
[7] Ver nosso livro Vórtex: modulações na Unidade Dinâmica.
[8] A primeira temporada está disponível no link https://www.youtube.com/watch?v=geVAKLViStE e a segunda no link: https://www.youtube.com/watch?v=QLaDDbkr_e4.
[9] Como a obra de um autor que se identifica com as filosofias dualistas de Platão e Schopenhauer, pode ressoar tanto com os transaberes, que, por sua vez, possuem ressonâncias na imanência de Spinoza e Bergson, por exemplo? Ora, estamos menos interessados na ontologia que Mutarelli se instala e mais no vórtex que se expressa em sua criação artística, que o impulsiona para além. Neste artigo, vamos trazer algumas contribuições, sobretudo da filosofia de Gilles Deleuze, quando este conceitua a partir da arte.
[10] Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=96NlFDExBO8.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.