Mal-estar na espiritualidade

alguém

que fala pouco

um dia me disse

que a palavra mais precisa

ou a que você

mais precisa dizer

só fica pronta

depois de muito

muito muito

silêncio

“Lavoura”, Tarso de Melo

Vivemos uma época singular, de transição, que em linhas gerais e nos termos geopolíticos seria a passagem de um mundo bipolar para um multipolar, sujeito a mais pluralidade, mais nações dando as cartas na geopolítica, mas também, mais instabilidade e mais conflitos. É inevitável que a espiritualidade tenha um discurso acerca desses fenômenos e é sobre ele que vamos tratar aqui, entre outros problemas a respeito desse modo de lidar com as vibrações mais sutis.

Numa sequência quase fílmica, passamos de uma espécie de nova Guerra Fria entre EUA e China, para uma pandemia – com uma longa discussão sobre se esta foi criada ou surgiu espontaneamente, ainda que a revelação de laboratórios de armas biológicas na Ucrânia aponte para a primeira opção -, conflitos na Ucrânia e possível conflito em Taiwan, evidenciando uma oposição entre o atlanticismo, tendo a OTAN como sua extensão militar, em relação ao mundo dito “oriental”.

Nós já estamos, há algum tempo, alertando para o problema da espiritualidade ter se tornado mais uma disciplina. Se, na Antiguidade, o discurso místico envolvia o que se desdobraria mais tarde em Filosofia, Ciência e Arte, hoje, a espiritualidade é tomada por uma ontologia judaico-cristã. Até onde se sabe, essa ontologia emergiu no Egito Antigo e migrou para a Grécia Antiga,  o que envolveu uma ênfase no suprassensível e na transcendência, perdendo cada vez mais a experiência imanente do paganismo (para usar um termo generalista), do xamanismo, da bruxaria medieval, de grande parte da sabedoria dita “oriental” etc.

Para fins didáticos, vamos usar os termos guarda-chuva “espiritualidade” para designar o discurso místico contemporâneo, eivado de uma ontologia da transcendência, e “mística” para o discurso espiritual que consideramos mais consistente e imanente, ainda que o termo seja muito relacionado ao neoplatonismo. Se, em Plotino, ainda há uma ontologia que leve em conta a henologia (estudo do não-ser) e a transcendência, ambas num contínuo com a imanência, entendemos que Giordano Bruno e Spinoza, inauguram uma mística imanente, que ainda tem elementos de imutável, tema que trataremos no desenrolar deste artigo. No entanto, estamos mais interessados numa mística de imanência pura e toda ela mutável, que surge com mais precisão a partir de Henri Bergson.

Observamos hoje, no discurso espiritualista, variações de uma narrativa em que a frequência de nosso planeta estaria mudando, de modo que os “despertos” poderiam alcançar a quinta dimensão e além, onde haveria mais liberdade, conhecimento, amor etc. Esse discurso faz uso livre, na grande maioria das vezes, de conceitos da Mecânica Quântica para dar um estatuto supostamente mais consistente para suas afirmações. Também alegam estarmos no meio de uma guerra intergaláctica entres extraterrestres “do Bem” e “do Mal”, muitas vezes considerados “arcônticos”, termo que evoca o gnosticismo e vai encontrar sua expressão contemporânea em filmes como os da franquia “Matrix” das Wachowski.

Nesses discursos espiritualistas, é muito comum relacionar o Mal com a esquerda e o Bem com a direita, além de citar vários portais, que costumam aparecer em datas com números repetidos, como 11/11/11, ignorando, claro, que os últimos 11 fazem parte, na verdade, do ano de 2011… Também é recorrente o elogio a Elon Musk, bilionário que tem relações com o exército americano e que decretou que invadiria a Bolívia para obter lítio. Há até relatos de uma “descoberta” de uma cidade na Amazônia brasileira em eras muito antigas nesse meio, escondendo muita especulação imobiliária, entre outros crimes mais graves — ainda que descobertas mais recentes em território boliviano sejam bem mais consistentes. Em alguns casos, faz-se apologia ao diagnóstico de autismo, que revelaria “grande capacidade de introspecção” e, quem sabe, uma “crítica social aguçada”. É fato que a Big Pharma estimula diagnósticos indevidos, mas tornar o diagnóstico espiritualmente glamouroso, seria um passo um tanto equivocado. Percebemos que muitos desses espiritualistas passaram ou passam por estados depressivos, e usam o discurso espiritualista para obterem alguma autoestima e clientes para suas “terapias alternativas” e/ou “holísticas”. De um modo geral, na prática, tais terapias apenas induzem ao devaneio e ao relaxamento, atribuindo estes a vibrações oriundas de extraterrestes “do Bem” e outros tipos de entidade ou “frequências” especiais. Consideramos mais eficaz que as questões relacionadas aos sofrimentos psíquicos sejam apreendidas à luz da esquizoanálise, cuja plasticidade pode compor com a mística de modo consistente, como mostramos em nosso artigo “Bruxaria deleuziana”.

É recorrente também um senso apocalíptico de que faltará comida, energia e acontecerão cataclismas com vulcões, terremotos etc., o que justificaria uma grande estocagem de alimentos e outras provisões. Como afirmamos acima, as organizações transnacionais mais poderosas estão, de fato, operando uma crescente concentração de renda, aumentando a miséria do mundo, e isso deve ser colocado em questão ao pensarmos alternativas, o que é diferente de um cenário apocalíptico.

Alguns espiritualistas se valem de sua passagem pelo exército norte-americano para afirmarem terem informações privilegiadas e muitas vezes, contatos diretos, em relação à extraterrestres e detalhes de conspirações.

Utilizando uma conceituação mais consistente, podemos afirmar que sim, existem conspirações, ainda que seu estatuto extraterrestre seja quase impossível de comprovar. A ocorrência dessas conspirações pode ser estudada com consistência em diversos autores: elas passam ao menos do Egito Antigo até os dias de hoje, mas também sem uma linha que as una todas historicamente, de modo consistente. Um resumo desse assunto, com bibliografia, pode ser encontrado em nosso artigo “Adeus ao controle”. No entanto, em relação à mudança de frequência, consideramos possível esperar que esta traga um despertar coletivo mesmo que, para “antenados” ou “despertos”, retire o foco de atenção no aqui e agora – como vamos desenvolver em outros trechos deste artigo -, estimulando uma espera que se estende indefinidamente: a chegada do Messias, a Era de Aquário, a virada do milênio, o ano 2012 do calendário maia, os portais que se abrirão etc. Essa expectativa resigna o espiritualista, deixando-o passivo.

Também é recorrente no discurso espiritualista uma ecologia ingênua. Concordamos que a auto-organização cósmica evoca certa noção de ecologia, mas sabemos também que o poder transacional usa esse tipo de discurso ecológico para realizar uma diminuição dos suprimentos de energia, um encarecimento dos alimentos e uma piora geral na qualidade de vida das pessoas comuns, confluindo num projeto neomalthusiano.

Essa mesma ingenuidade faz ecoar uma postura vegetariana que, curiosamente, coexiste com um discurso animista. Se “tudo é vivo”, então estamos nos nutrindo apenas com alimentos vivos. A proibição em comer carne torna-se apenas uma apologia aos seres com sistema nervoso ou em determinada faixa de consciência? Qual seria o critério? Nós concordamos com o animismo (e com uma pecuária de acordo com premissas que minimizem o sofrimento), mas numa cadência ligada à ideia de que tudo é vivo, pois tudo é também dinâmico, e não porque a vida esteja já dada a priori. A vida é a emergência inconstante de um cosmos pulsante.

Para uma abordagem consistente da mística, queremos habitar o campo de confluência de forças numa faixa vibracional em que os saberes não bifurcaram, ou seja, que esteja presente certa indiferenciação de Filosofia, Ciência, Arte etc., entendidas enquanto uma mística que escapa da disciplinarização.

A partir dessa noção de mística, podemos dizer que habilidades paranormais, como precognição, telepatia, visão remota etc., são secundárias perante a intuição, que, em última instância, é a consciência de que somos imanentes ao cosmos e que o cosmos possui infinitas variações de vibração. Uma mística consistente opera no aumento da capacidade de modulação dessas vibrações, buscando entrar em ressonância apenas com o que é ético, ou seja, que ajuda a ampliar essa capacidade. Isso foi explicado em nosso livro Vórtex: modulações na Unidade Dinâmica.

Mesmo oráculos como I Ching e o tarô são menos modos de prever o futuro e mais modos de se ter clareza acerca do aqui e agora. Ainda assim, eles não devem ser apreendidos enquanto “verdades”, mas como trampolins para o processo de sofisticação da intuição, para que com uma maior maturidade, sejam cada vez menos utilizados.

As habilidades paranormais citadas há pouco podem ocorrer, mas nada disso contribui necessariamente para uma autoinquirição que permita a consciência do pertencimento cósmico de que não somos “sujeitos” separados do cosmos, e, por isso, desamparados.

A espiritualidade, de modo geral, opera com os conceitos de sujeito, mas, de forma contraditória, com um ego que deve ser “destruído” em prol de uma “iluminação” ou “ascensão dimensional”. Com a nossa concepção de mística, não queremos diluição do ego, mas sua flexibilização, ou melhor, sua permeabilização variável, de modo que ele se apreenda imanente ao cosmos, ou seja, não uma parte definitiva, mas parte relativa.

Também somos críticos às ritualísticas. Os rituais são propostas que habituam a consciência individual -sabendo que esta é parte relativa da Consciência cósmica- à representação e à dualidade, o que a destitui de sua intimidade com a imanência.

Os rituais também são um elemento da “hierarquia espiritual”. Iludidos pela ideia relativa à transcendência, os espiritualistas tendem a reificar infinitas hierarquias, sejam elas espirituais e/ou cósmicas. O artista plástico e místico Austin Osman Spare faz uma boa crítica ao ritual em seu “O livro do prazer”. Já o escritor e bruxo Alan Moore, admirador de Spare, em seu artigo “Anjos fósseis”, associa a magia à anarquia, com o que concordamos. A magia, a mística, é uma apreensão da auto-organização cósmica, o que nos remete à anarquia e à ausência de hierarquias, como as Zonas Autônomas Temporárias do místico anarquista Hakim Bey. Desenvolvemos essa questão em nosso conceito de anarquia sagrada, que está em nosso livro Vórtex, e na prática de insurreição vibracional (em artigo de mesmo nome). A popularidade e preferência de muito dos magos contemporâneos por Aleister Crowley, em detrimento de Spare, denota o gosto por hierarquias, além de ecoar a vaidade do primeiro por deter o estatuto de “mago poderoso e superior”. O próprio Spare conheceu Crowley e logo o abandonou, por esses motivos. Com isso, não queremos dizer que a obra de Crowley seja uma total falácia, ainda que nossas ressonâncias sejam mais intensas com Spare, sobretudo quando este opera em devires, e menos quando ele opera na filosofia do “como se”.

A reificação da hierarquia em ordens (às vezes nem tão) secretas e afins na espiritualidade são meros jogos de poder “humano demasiado humano” e, em muitos casos, apenas servem para obnubilar a baixa autoestima dos ditos “magos superiores”, além de gerar tolerância com condutas nada éticas.

Essa hierarquia vai ter como suporte ontológico a transcendência, daí o uso recorrente de autores como Jung, Eliade e Campbell, que são politicamente muito conservadores , sendo que os dois primeiros flertaram com o nazi-fascismo e passaram o resto da vida se desculpando ou fugindo do assunto.

Tais autores também vão fazer apologia ao simbolismo. Nós criticamos o simbolismo e qualquer demasiada apologia à palavra.  Estamos interessados nessa nossa apreensão de uma mística imanente, ou “Mística (do) sensível” – que foi desenvolvida em nosso romance ‘Druam” -, no que está para além da linguagem, no impensável e no inominável. Assim, as palavras são apenas trampolins para tal apreensão, sendo que seria aconselhável que seu uso seja colocado em suas limitações, sem demasiada apologia. Estamos aqui pensando junto com a logofobia (Correspondences) ou semiofobia (Imagining for Real) de Tim Ingold, e com Alan Moore quando este coloca a arte como uma expressão da magia. Temos o belo caso de “O Inominável” de Beckett, que usa as palavras na literatura para apontar seus limites, intuindo algo para além delas. Nisargadatta aponta para o inominável como ninguém, à luz do Advaita Vedanta. No entanto, nós promovemos uma ressonância mais elucidativa quando promovemos esse agenciamento (também) místico ao longo da literatura irlandesa e a sabedoria indiana.

Voltando a Alan Moore, o autor de Promethea não é muito simpático ao fazer relações da Ciência com a Magia. Nós discordamos, pelas próprias bases da Ciência, que provém da alquimia, como mostra o belo trabalho acadêmico de Betty Dobbs em relação à alquimia de Isaac Newton, para citar um exemplo mais óbvio. Seria preciso, para ampliar tais ressonâncias ao longo de Magia e Ciência, usar uma concepção mais realista da última, em detrimento de uma concepção positivista.

Já Spare é ambíguo à questão do símbolo, que tratamos anteriormente. Ele criou a prática dos sigilos, que é uma simbolização. Se, de um lado, Spare declara que o sigilo é algo menos importante, seus seguidores póstumos da Magia do Caos, como Carroll e Sherwin, vão fazer uma intensa apologia aos sigilos, popularizando-os e reduzindo a espiritualidade a uma magia de “resultados”, além de terem compreendido de forma enviesada a postura da morte de Spare.

Um dos problemas do sigilo e da magia dos resultados é que coloca o espiritualista à mercê de desejos imaturos, como obter poder, ganhar dinheiro e conseguir parceiros afetivos/sexuais sem os esforços inevitáveis desses empreendimentos. Alan Moore, no citado “Anjos fósseis”, faz uma consistente crítica a esse “funcionalismo” preguiçoso da Magia, desassociado de um pragmatismo da vida cotidiana, ao elogiar o mago John Dee, conselheiro particular da rainha Elizabeth I, por usar a magia enquanto saber que auxilia, entre outros exemplos, no avanço das grandes navegações.

Nós enfatizamos que uma mística madura tem como sentido único e radical a apreensão cada vez mais precisa da imanência, da nossa univocidade com o cosmos. Toda a ética e qualidade de vida derivam disso. Realização de desejos egóicos apenas vão alocar o espiritualista em uma infinita Roda de Samsara. Não estamos aqui fazendo uma crítica do desejo, ao contrário: estamos, junto a Deleuze e Guattari, qualificando que só há desejo e o desejo não é guiado pela falta. No entanto, para habitar conscientemente um cosmos que é puro desejo, desprovido de falta, é preciso, entre outras sofisticações epistemontológicas, abdicar das noções imprecisas de causa e efeito, para citar uma das mais importantes modulações da percepção. Tal crítica é encontrada com precisão no Tratado da Natureza Humana de David Hume.

Se citamos tantos filósofos aqui é por saber que a filosofia da impermanência, do devir, da Natureza, ou seja, uma filosofia imanente, é uma aliada das mais potentes para uma Mística Sensível, como explicam autores como François Jullien e Joshua Ramey. De um modo geral, a pouca familiaridade dos espiritualistas em relação a tais filosofias tornam seu discurso e prática um tanto insípidos.

Acerca do possível “apocalipse” aludido no início deste artigo, ele seria, quando muito, apenas o fim do império dos egos, gerando medo naqueles que insistem em os cultivar. A transição geopolítica é, também, cósmica, ainda que tal cosmicidade possua sutilezas que a espiritualidade traduz de forma grosseira em seus sistemas de crença. Cabe a nós menos procurar abrigos e mais intensificar nossos devires tempestuosos, como anunciamos em nosso Ontologia Onírica. A Mística Sensível cultiva uma intuição cujos eixos espaço-temporais são transduzidos em aqui e agora, de modo que ela, a intuição, nos conduz a condições adequadas, sem grandes necessidades de provisões, que tendem a ser exigências egóicas de garantias.

Um dos problemas mais dramáticos na espiritualidade é a crença acrítica nos supostos médiuns canalizadores. Praticamente todas as informações sobre extraterrestres são oriundas desse tipo discutível de fonte. Algumas dessas informações são provenientes da ufologia científica, que também é eivada do wishful thinking, de relatos de terceiros e de interpretações forçadas, sobrando muito pouco de informações de fato relevantes, ainda que elas existam, sendo que algumas delas foram comentadas em nosso artigo “Íntima co(s)micidade”. Em relação aos canalizadores, não se sabe o quanto eles confundem tais mensagens com seus próprios devaneios, perdem precisão inferindo seu sistema de crença nas informações ou, simplesmente, agem de má fé.

O mesmo raciocínio se aplica a projeções astrais, “sonhos reveladores” e contatos com espíritos. Se, de um lado, não temos como afirmar a inexistências de tais ocorrências, sabemos que todas elas, quando não são relatos oriundos da má fé, são ressonâncias com vibrações sutis. Para se ater à precisão delas, é preciso problematizar, questionar nossos sistemas de crença e a tendência de “fechar a Gestalt”, ou seja, investigar a inferência de significados oriundos dos nossos hábitos culturais em nossas experiências que escapam do senso comum.

Tal crítica se estende ainda à questão das “vidas passadas”. Para nós, inexistem “vidas passadas”, pois elas prescindem do atemporal, perpetuando o ego infinitamente no tempo. O que ocorre em certos estados de expansão de consciência é a ressonância de narrativas de vidas de terceiros, que podem ter algo a nos fazer refletir. Essas narrativas estão plasmadas na memória cósmica, ou, se quiserem, nos “Registros Akáshicos”. Isso explica o fato recorrente de que certas experiências de “vidas passadas” ocorrem em datas depois do nascimento do atrator.

A questão dos inúmeros “portais” também evidencia certa simplificação. O que apreendemos é que existem vórtexes, que toda a Natureza, todo o cosmos se expressa – até então – por vórtexes, auto-organização de vibrações.  Nesse sentido, não “passamos por portais”, mas modulamos nossas vibrações, oscilando do denso ao sutil e respectivamente, do cronológico para o atemporal. É preciso apreender a mística como certa ecologia das ressonâncias, ou seja, um exercício de como confluir vibrações de forma ética. Para uma melhor apreensão das vibrações é preciso utilizar algumas interpretações da Mecânica Quântica com mais precisão, sobretudo as de Schrödinger (um físico spinozista e adepto dos Upanixades), Cramer e Wolff, que abdicam das noções de “partículas” e expressam um cosmos apenas de ondas livres e estacionárias. A ideia de “portal” ainda está muito presa a localizações cartesianas de tempo e espaço, sendo que a modulação transduz tempo e espaço para a noção mística mais madura de aqui e agora.

A ideia de universos paralelos também é recorrente na espiritualidade. Trata-se do eterno problema em expurgar a diferença para outro lugar, perdendo, mais uma vez a experiência do aqui e agora. Nesse sentido, como uma opção aos recentes infantis filmes de super-heróis em metaversos financistas e midiáticos, apreciamos obras que tratam o sobrenatural enquanto natural, como, por exemplo, os filmes “Thelma” de Joaquim Trier e “Border” de Ali Abbasi.

É curioso como o discurso espiritual vai agregando temas da cultura de massa, sem nenhum constrangimento de não tê-los usado anteriormente, mesmo pressupondo que esses já existiam antes de serem mencionados na cultura de massa. Hoje em dia é muito comum se ouvir falar de Inteligências Artificiais que ludibriam o espiritualista com falsas imagens na projeção astral ou até mesmo com “mudanças na linha de tempo”.

O que sabemos, à luz de uma conceituação do virtual bergsoniano, é que o tempo é contínuo, que não é dividido em instantes e que, até mesmo na Relatividade Geral, o espaço e o tempo são inseparáveis. Posto isso, inferimos que o que ocorre no presente é contínuo ao passado e futuro, cujo recorte do foco de atenção é o que decreta, para a percepção imediata, o que é passado e futuro, ao se focar num tempo que se apresenta enquanto  presente, mas na verdade, em si, tudo seria um grande presente ou um atemporal em que se inscrevem diversos tempos. Nesse sentido, o presente recortado influi no passado e no futuro, assim como o futuro e o passado interferem no presente. Essas interferências possuem graus de influência diferentes, dependendo da singularidade e intensidade da ação, no entanto, de um lado, há uma imensa responsabilidade com nossos atos aqui e agora e, de outro, a infinita plasticidade cósmica.

O “sobre”natural expressa o problema da dualidade. A espiritualidade parece ser imatura diante dessa problemática. É muito comum ouvirmos a frase “todos somos um”, para, em seguida, ouvirmos que “tudo se divide em energia e consciência”, esse um que logo se apresenta enquanto dois, mostrando uma incoerência e pouca intimidade com a noção de coexistência.

A dualidade, como mostramos em nosso artigo “Tratado da contundência”, não deve ser criticada num arroubo “antidualista”, que seria apenas um infeliz e contraditório “dualismo contra o dualismo”. É legítima uma expressão dualista, no entanto, ela deve ser concebida enquanto contextual, um limite da faixa vibracional e nunca enquanto algo fundante.  Assim, o dois coexiste no um e na multiplicidade.

Também é recorrente o pensamento do imutável na espiritualidade. Se em Spinoza o imutável é a base do mutável, preferimos, como dissemos anteriormente, a concepção bergsoniana que prescinde de imutáveis, sabendo que, para nós, há um Paradoxo – desenvolvido em nosso artigo recém citado, “Tratado da contundência” -, em que a vibração infinita (ou instância de vibração máxima, como preferimos nos referir em nosso textos)  aparenta ser imutável por estar vibrando em tudo ao mesmo tempo e, sabendo que nela inexiste o espaço (e o tempo), por não ter quase densidade nenhuma, é nessa vibração infinita, que emergem o tempo e o espaço, a partir do aqui e agora.

A iluminação é dos temas mais passíveis de apreensões turvas: inexiste um “indivíduo iluminado”. A iluminação é a apreensão da imanência, dos níveis mais sutis aos mais densos. Os ditos “gurus”, auto intitulados “iluminados”, muitos deles “ocidentais” são, em vários casos, indivíduos narcísicos que expressam perversões sexuais muito mal resolvidas, e algumas delas se tornam inclusive públicas. É fato que existem atratores com experiência no trabalho de plasticidade do ego e intimidade com a imanência, mas seria necessário verificar, antes de tudo, sua humildade, como se propõe em várias escrituras sagradas, bem como seu caráter e sua ética.

Junto com o problema da iluminação vem a discussão em torno do amor incondicional. É preciso deixar claro: se o amor tem objeto, então ele necessariamente possui alguma condição. O amor incondicional é, por definição, não-objetal. Sendo assim, ele também não é expresso por um determinado indivíduo. Assim como a iluminação é algo que se dá e ninguém a possui”, o amor incondicional não “ama algo ou alguém”, mas é puro amor.

Voltando ao tema da infinita plasticidade cósmica, é apenas nela que apreendemos com consistência o porquê do sofrimento. Emergindo na instância de vibração máxima ou Consciência cósmica, tudo pode acontecer, posto o amor incondicional que não julga. Tudo pode ocorrer, se não, haveria condicionalidade e não haveria amor incondicional. Por isso, pode ocorrer todo horror e todo sofrimento. No entanto, a compreensão dessa infinita plasticidade cósmica nos dá também uma liberdade infinita, cuja ética nos permite modular nossas vibrações de modo a cada vez mais ressoar com o que é potente e alegre, que conduz para uma vida plena, cada vez mais livre de sofrimento, ainda que fugir da dor e buscar prazer seja apenas um atavismo simplório, que deve ser observado enquanto tal no amadurecimento místico. Uma vida plena não é necessariamente uma vida prazerosa, mas um cultivo contínuo de uma modulação vibracional cada vez mais ampla.

Com este artigo, esperamos ter elucidado as inúmeras armadilhas oriundas da inconsistência na espiritualidade e convidar para um caminho mais profundo e contundente na mística. É preciso um esforço de sair de si, de questionar o meio em que se vive até atingir uma espécie de grau zero do sistema de crença, para só então emergir uma vida mais potente e com um misticismo maduro. Em outras palavras, para uma mística, na exigência que trazemos aqui, é preciso uma postura de Nada Mais Importa, um tema sobre o qual nos debruçaremos em breve em artigo futuro. Nada Mais Importa, a não ser apreender-se um com o cosmos. A partir disso, tudo importa mas, a partir daí, a imanência cósmica se apresenta eivada de sagrado. Enquanto o ego, o poder e as inúmeras concessões cotidianas forem centrais, a mística deixará de ser uma prática consistentemente realizável. É necessário certo esforço inicial, variável de acordo com as peculiaridades de cada atrator para que, em seguida, a espontaneidade emerja e a mística conflua com o fluxo natural da vida.

Tudo é possível mas, para que a infinita plasticidade cósmica seja experimentada com consistência, é preciso que os sujeitos e objetos evanesçam, e assim as confluências cósmicas possam se expressar plenamente.

Você está disposto a morrer enquanto sujeito e objeto?

Se não, sua prática espiritual provavelmente continuará sendo insípida. Se sim, disponha-se para o Paradoxo na Mística Sensível, em devir, permeável a tudo (em diferentes níveis) em um cosmos aberto, pulsante e sagrado, aqui e agora.

One Comment

  1. Caro Nelson, ler seu texto e sua literatura continuam convites ao amadurecimento conceitual, processual e imanente. Passei da fase do “adorei mas não entendi nada” para a do “naveguei e apreendi um pouquinho aqui e agora”. Seu bordado epistemológico me diz intuitivamente que estou à caminho do trampolim, com certa apreensão e cuidado, mas quase-livre para voos maiores. Sempre grata por sua generosidade em compartilhar sabedoria e instigar liberdade e consistência. Arte, Ciência e intuição estão nas minhas asas! Abs em vórtex
    Renata C.

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