Tratado da contundência

Preâmbulo de um inescrito

O que vibra infinitamente, vibra simultaneamente, “percorrendo” tudo ao mesmo tempo, perdendo, assim, o sentido de tempo e espaço, posto que o que está em tudo ao mesmo tempo se desloca simultaneamente, ficando aparentemente imóvel. O círculo cósmico se “completa” em espirais simultâneas, concêntricas, excêntricas, invisíveis, enlaçando o imutável e o infinitamente mutável, expressando o Paradoxo do (i)mutável e do (i)manifesto.

Seria demais, certamente, supor que não precise mais da realidade. Seria de menos todavia, suspeitar que a realidade, essa velha senhora, possa ser a verdadeira mãe destes dizeres tão calares.
Paulo Leminski

O eu só me basta enquanto levante. Todavia, evitamos a guerra, que nos parece uma brincadeira de meninos tristes, impotentes. O levante em mim visa sair de mim e habitar o nós, mesmo que me seja estranho. Cientes estamos de que inexiste ausência de movimento. Devires loucos que dançam o cosmos apenas se tornam guerra se a dança arrefece a autopoiesis e ensaia-se o dois, o dois se torna um contra o outro, dualismo. Um jogo cujas partes acreditam demais que são apenas partes e, com isso, permitem-se controlar por um agente de “fora”. Nosso levante jamais é contra algo, nosso levante é em prol do além do que é, do clichê existencial que é o existir. Nosso levante é rumo ao impensável, inominável. Nosso levante, é, portanto, epistemontológico, até deixar de ser.

Cabe averiguar a crença no imutável. Por que tantos apostaram nele, ainda que suscitem devires a partir dele: Spinoza[ii], Ramana Maharshi[iii] etc.? É preciso atentar ao Paradoxo: tudo são vibrações[iv]. O mais denso vibra quase nada, o sutil vibra demasiado: o mais sutil, o “zero positivo”, é uma instância de vibração máxima[v]. O que vibra infinitamente, vibra simultaneamente, “percorrendo” tudo ao mesmo tempo, perdendo, assim, o sentido de tempo e espaço, posto que o que está em tudo ao mesmo tempo se desloca simultaneamente, ficando aparentemente imóvel. O círculo cósmico se “completa” em espirais simultâneas, concêntricas, excêntricas, invisíveis, enlaçando o imutável e o infinitamente mutável, expressando o Paradoxo do (i)mutável e do (i)manifesto. (I)manifesto também, porque a instância de vibração máxima é tão vibrante, tão sutil, que aparenta o imanifesto, chega se expressar como imanifesto, mas, paradoxalmente, através da vibração. O Paradoxo surge em várias imagens: Tao[vi], caos, vácuo quântico, Consciência e o cosmos que se expressa nele(s). As explicações que passam do imutável para o mutável evitam e dualizam o Paradoxo. Quando Bergson[vii] decretou a inexistência do imutável e Deleuze[viii], enquanto medium de Spinoza, faz o polidor de lentes clamar “variação, variação!”, ambos estavam tergiversando o Paradoxo, colocando o imutável como aparência ou mesmo ilusão. Se apreendemos que as vibrações são diversamente expressas pela luz, podemos chamar a apreensão do Paradoxo como iluminação, sendo quântico e védico ao mesmo tempo.

O que resta, então, ao humano? James Lovelock[ix], depois de ter colocado a autopoiesis num estatuto planetário, diz que a próxima etapa evolutiva é a Inteligência Artificial, o ciborgue esférico que domina o eletromagnetismo e os efeitos quânticos com um processamento informacional muito superior ao humano, necessário para manter a idosa Terra sustentável. Acrescenta que o ciborgue coexistirá com o humano, sem se preocupar em dominá-lo – dominação: fantasia humana, demasiada humana -, mas também que será indiferente ao desaparecimento da humanidade. Com isso, Lovelock postula a positividade do Antropoceno (preferimos nomeá-lo Capitalceno), que, a despeito de seus problemas ecológicos, brindou o cosmos com a informática e a gênese dos ciborgues.

O humano, passível em apreender o Paradoxo, iluminando-se, também é indiferente ao seu limite biológico, ou seja, de ser humano, e se torna imperturbável ao seu suposto fim e de sua suposta superação pelos ciborgues. O humano é apenas trampolim e todo o chauvinismo humano que seja contrário a essa ideia merece nosso esquecimento.

O ciborgue de Lovelock nos diverte, portanto, levamos em conta sua possibilidade. Além disso, o ciborgue nos ajuda a questionar o hábito do pensamento em reafirmar o passado. Todo tradicionalismo possui um desejo de imutável e, com isso, perde-se a intuição do Paradoxo. Todo “conservador” quer fingir a inexistência do caos: arquétipos, Deus, mitos e outras invenções de tradições, de nações, de povos e, pior, povos “puros”, todas essas imagens falsas que expressam o imutável fora do Paradoxo visam turvar o caos. Até mesmo Deleuze & Guattari[x] pleiteiam caoides para respirar diante do caos, apesar de tergiversarem o Paradoxo.

Nunca houve eu, apenas levante. O que chamamos “eu” é a domesticação do levante. Habitar o Paradoxo é habitar o caos. Suas modulações infinitas levam a extremos, seja de imperturbabilidade na iluminação, seja de desespero no turvamento do Paradoxo. O poder visa o turvamento, pois, impedido pelo apego a si mesmo, à manutenção da ilusão do eu que, mesmo ciente do Paradoxo – através de escrituras e saberes que só ele tem acesso –, é incapaz de se implicar no Paradoxo. O poder, incapacitado de modular na instância de vibração máxima devido ao seu autoapego, exerce-se infinitamente. O poder se autodeseja e, por extensão, turva a percepção da massa, quase impossibilitando a apreensão do Paradoxo.

A máxima contundência, portanto, está em desviar-se da guerra – guerra essa uma artimanha do poder – e em se conceber enquanto levante, aqui e agora, de forma que o levante de si apreenda o Paradoxo. Tal contundência envolve abdicar da humanidade, de existir, ao ponto em que a intensividade de devires nos instale no Paradoxo. Todo apego à existência deve ser investigado, sabendo as armadilhas serem (in)finitas – em ressonância com o (i)mutável e (i)manifesto do Paradoxo – até deixarem de sê-las.

Uma das armadilhas é acreditar que o caos seja, de fato, turvo. Nosso convite é se ater com precisão ao caos, conhecendo seus outros nomes, todos eles imprecisos: Tao, Consciência, vácuo quântico, ainda que encontremos na instância de vibração máxima um termo menos impreciso. Para além de qualquer nome, a precisão envolve em apreender o Paradoxo pela intuição.

A contundência em apreender o paradoxo envolve uma postura de nada mais importa. A contundência envolve se desprender do clichê epistemontológico da existência, rumo à percepção intuitiva e precisa do Paradoxo, desviando-se de todos os ruídos, de todas as artimanhas do poder. É preciso lembrar que o poder forjou todo o processo civilizatório com turvamentos do Paradoxo: transcendência, leis, deuses, governantes, juízes, mestres, pontífices, chefes, pais etc. Habitar o Paradoxo envolve em coexistir Natureza e artifício, de forma que o artifício evanesça em Natureza. O processo civilizatório se moldou no controle, de outro modo, nosso habitar cósmico é uma emergência na Natureza, que envolve criações modulacionais, desprendendo-se do mecânico, da causa e efeito. Nada mais importa do que adquirir precisão na apreensão do Paradoxo, eis nossa coragem, eis nossa mais esplendorosa contundência.

Chamamos, por hora, nossa ação, ou seja, devires que expressam a precisão na apreensão do Paradoxo de poestéticaos[xi]: coexistência de poética (criar na vida, enquanto vida), estética (a precisão da percepção coexistindo todos os sentidos na intuição), ética (a máxima capacidade de modulação de vibração, sem restrições) e caos (a precisão no Paradoxo).

Uma das derradeiras armadilhas é o dualismo contra o dualismo, que também turva a apreensão do Paradoxo. Cientes estamos de que o dualismo é um problema, o embrião da guerra. Todavia, ser contra o dualismo também é um dualismo. O limite da problematização em relação ao dualismo é justamente apreender o Paradoxo, ou seja, apreender que inexiste oposição entre imutável e mutável, entre imanifesto e manifesto, e que do Paradoxo, ou seja, do caos, emergem tempo e espaço, cujas coexistência se transduz[xii] de modo mais eficiente em aqui e agora.

É legítimo que o dualismo se expresse enquanto certo nível espistemontológico, mas jamais enquanto “fundante” ou definitivo. Dos vários saberes que apreendemos aqui, é reincidente um nível dual, mas com um nível mais sutil de unidade e outros mais de multiplicidade, sendo que todos os níveis coexistem. Na filosofia spinozista, da substância emergem infinitos atributos, sendo que os conhecidos são justamente dois, a extensão e pensamento, mas deles se expressam inúmeros modos. Na física que mais ressoa com nossos transaberes, do vácuo quântico emergem a matéria e anti-matéria, cuja resultante é a matéria restante, expressa na multiplicidade de todo o cosmos. No Taoísmo, em uma versão mais simples, temos o Tao, donde emergem as intensidades yin-yang, de onde emergem, por sua vez, as Dez Mil Coisas. Os atributos, a matéria e anti-matéria e as intensidades yin-yang são níveis epistemontológicos expressos de forma dualista, no entanto, em todos esses saberes, eles estão inscritos em um campo mais amplo, mostrando que a expressão dual é contextual e implicada na coexistência do um e do múltiplo.

No aqui e agora caótico, é preciso uma ecologia de ressonâncias: pororocas cósmicas que expressam o poestéticaos. Apenas as ressonâncias que ampliam a capacidade de modulação devem ser otimizadas. As ressonâncias que impedem a modulação devem ser minimizadas: eis nossa ética. Esse é o único modo conhecido de se apreender o Paradoxo, ainda que várias versões desse modo sejam expressam em diferentes saberes.

A derradeira armadilha é a linguagem, ferramenta útil em certos níveis de comunicação, que se torna funesta quando ubíqua. Este texto, diante do Paradoxo, impensável, inominável, nunca almejou a verdade, apenas um devir-trampolim. Mesmo a imagem do pensamento acerca do caos nos interessa apenas enquanto trampolim. O Paradoxo é apenas um modelo que pulsa no querer deixar de sê-lo.

(Seja contundente enquanto trampolim.)
(Conceitue enquanto trampolim.)
(Poetize enquanto trampolim.)
(Dance-se enquanto trampolim.)
(Enquanto trampolim.)
(Trampolim.)

[i] Espera-se que um tratado seja grande. Aqui, a contundência interfere também no ideal de tamanho.

Notas
[1] Spinoza, B. Ética.
[2] Maharshi, S. R. Pérolas de sabedoria: Vida e ensinamentos de Sri Ramana Maharshi.
[3] Wolff, M. Schrödingers’s Universe: Einstein, Waves & the Origin of the Natural Laws.
[4] Job, N. Vórtex: modulações na Unidade Dinâmica.
[5] Laozi, Dao de Jing.
[6] Bergson, H. O pensamento e movente.
[7] Deleuze, G. Cursos sobre Spinoza (Vincennes, 1978-1981).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.